Verdade na prática : Indiferença.

     

Foto: Verdade na Prática

    Indiferença





Do outro lado da rua passava ela —
Maria, Júlia, Iracema… não sei quem era.
Nos braços, uma criança de colo;
na cabeça, uma pilha de papéis —
jornais, talvez — prontos para vender.

O rosto mostrava o cansaço e a fome,
os pés, sujos, calçavam chinelas gastas.
O corpo, coberto de trapos,
falava de uma vida esquecida.

As pessoas passavam, apressadas,
fingindo não vê-la —
pois ver doía,
ver pesava na consciência.

Ela seguia o fluxo da multidão,
sempre pela beirada,
junto ao meio-fio,
para não atrapalhar ninguém.

Eu também fingi não vê-la.
Tive medo de cruzar seu olhar,
porque se o fizesse,
morreria um pouco por dentro,
por nada fazer por fora.

E então nos perguntamos:
onde estão as autoridades?
Estão onde sempre estiveram —
longe do povo,
longe do pobre,
longe da fome.

Ela se foi.
E eu fiquei —
com a alma apertada,
carregando a velha angústia
de ser, mais uma vez,
indiferente.



Autor: Luis Alexandre Ribeiro Branco




Tambem publicado em:

Verdade na Prática 

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Cascais - Lisboa - Portugal

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Geraldo Brandão

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