Desde os primórdios das civilizações todo indivíduo era encorajado, se não exigido, que cooperasse com seus recursos para a manutenção destas civilizações.
Esta contribuição, nas civilização mais remotas eram em forma de algum tipo de trabalho que a cada pessoa era designado. Em algumas civilizações milenares, como os povos da Índia antiga, a sociedade era dividida em um sistema chamado castas, que embora hoje passe uma ideia pejorativa, na sua genesis e por milênios foi essencial para a sobrevivência destes povos.No contexto indiano, a sociedade estabeleceu quatro grupos endógamos: brâmanes, xátrias, vaíxas e sudras. Na antiguidade praticamente todos os povos do mundo eram teístas, tal como hoje não existe um único povo que seja completamente ateu. Uma vez que a religião sempre fez parte da organização dos povos, em geral, como no contexto indiano, existiam e ainda existem os sacerdotes que tinham a tarefa de zelar pela crença do seu povo, interceder junto aos seus deuses pelo bem-estar e provisão, oficializar ritos de iniciação religiosa e adoração ao deus ou deuses do seu povo. Diante das responsabilidades destes sacerdotes, estes exerciam suas funções a tempo integral, sobrevivendo das ofertas e doações que lhes eram trazidas pelas pessoas.
Outro termo utilizado para designar estes intermediários e zeladores das crenças do seu povo é oráculo, termo que designa o intermediário humano consultado, que transmitia às divindades as preces e perguntas do povo e ao mesmo tempo, a resposta das divindades até os mesmos. Estes oráculos sobreviviam tanto com recursos provenientes dos governos locais ou da sociedade. Igualmente aos sacerdotes, viviam a tempo inteiro devotados às suas obrigações. Na Grécia antiga, os oráculos gregos constituíam um aspecto fundamental da religião e da cultura grega. O oráculo é a resposta dada por um deus que foi consultado por uma dúvida pessoal, referente geralmente ao futuro. Estes oráculos só podem ser dados por certas divindades, em lugares determinados, por pessoas determinadas e se respeitando rigorosamente os ritos: a manifestação do oráculo se assemelha a um culto. Além disso, interpretar as respostas do deus, que se exprime de diversas maneiras, exige uma iniciação. Sendo assim, tanto na cultura grega como na cultura romana estes oráculos eram sustentados tanto pelo governo como pelo povo.
Quando pensamos nos aspectos do local do culto, que recebiam nomes diversos como templos e santuários. Estes eram construídos pela comunidade, com esforço do próprio povo, com recursos do estado ou até mesmo por indivíduos mais abastados que com interesse de manifestar sua devoção ou gratidão ao seu deus contribuiam para a construção destes lugares. É interessante observar que mesmo na Europa cristã dos séculos passados este costume da construção de igrejas, seja pelo povo, seja pelo estado ou por indivíduos contribuiu para o número de igrejas e capelas por todo Continente.
Na medida que estas civilizações avançavam ou evoluíam, as formas de manutenção dos sistemas de culto e seus sacerdotes foram mudando, uma mudança principal no género doado. Com a diminuição ou quase extinção das comunidades de trocas, ou seja, sociedades que subsistiam na base da troca de géneros produzidos por outros tipos de géneros produzidos por outras pessoas, passou então a funcionar o sistema de compra e venda, onde um objeto de valor agregado passava a ser o principal agente para a aquisição de bens e também o motivo da comercialização de bens. Estes objetos foram mudando até chegar ao dinheiro e hoje segue a sua mudança influenciado pela tecnologia e inovação. Desta forma, hoje, os lideres religiosos, sacerdotes ou responsáveis pelo culto das diferentes crenças são geralmente assalariados. Em alguns países onde a igreja é estatal, recebem do governo e nos países onde a religião e o estado são separados estes religiosos são sustentados financeiramente por suas comunidades locais e a elevação dos locais de culto seguem o mesmo sistema de outrora supra citado.
O objetivo deste artigo não é tratar dos desvios de condutas de alguns lideres religiosos, de hoje e de antigamente, que usurpavam do ofício que possuíam ou possuem para práticas do charlatanismo tornando-se donos de grandes fortunas. Estes devem ser investigados e se encontrados em falta, devem ser julgados e condenados pela prática do crime. Entretanto, é preciso observar que a maioria dos lideres religiosos, sem distinção da religião, são pessoas honestas e que vivem com aquilo que lhes é designado por suas comunidades. O simples fato de não concordar com determinada prática religiosa, se não é danosa, não nos dá o direito de dizer que as pessoas daquela comunidade não podem contribuir para o sustento de seus sacerdotes e empenharem-se na construção e sustento de seus locais de culto e difusão da sua fé. Isto é um direito fundamental do ser humano. Se alguém frequenta alguma forma de culto e com ela contribui, desde que voluntariamente, é porque obtém algum tipo de benefício, seja em que esfera for.
O envolvimento financeiro não é um privilégio apenas da religião, mas praticamente todas as formas de comunidades, associações, clubes, entre outros recebem de seus membros alguma forma de benefício financeiro para a sua manutenção e expansão. Como membro de algumas academias de letras, sociedades de filosofia e poetas tenho obrigações financeiras anuais com estes organismos. Portanto, em termos de direitos humanos, cada um contribui como quer e onde quiser, sem que seja constrangido por terceiros. Infelizmente os veículos de comunicação social são muitas vezes os principais agressores destes direitos humanos quando de forma desinformada, preconceituosa e antiteísta procuram denegrir estes grupos religiosos. É importante respeitar tudo aquilo que é feito na legalidade, na boa fé e que diz respeito a qualquer grupo religioso.
Na história bíblica observamos que a prática das ofertas, doações e dízimos fazem parte da cultura da humanidade desde o seu princípio. Está prática fez parte da vida dos patriarcas, mais tarde, com o estabelecimento da fé hebraica através de Moisés, está prática comum torna-se uma norma e passa a fazer parte da Lei (Torá) e segue por toda história dos hebreus e continua através da fé judaica e cristã. No cristianismo, observamos que o próprio Jesus recebia ofertas e donativos que financiaram o seu trabalho junto com seus apóstolos. Na história dos israelitas, observamos que a semelhança dos povos indianos, um clã inteiro, a tribo de Levi, era sustentada integralmente com ofertas, donativos e dízimos. Na história da igreja cristã, vemos que as contribuições financeiras eram práticas comuns e abundantes por parte dos primeiros cristãos. Uma dúvida constantemente levantada por alguns é se a prática do dízimo fazia parte tanto da vida de Jesus e subsequentemente da igreja primitiva? É preciso compreender que aquilo que é óbvio nem sempre precisa estar escrito. Acredito que tanto Jesus, como seus apóstolos foram dizimistas fiéis, pois foram acusados erroneamente pelos judeus de não obedecer em alguns mandamentos e costumes judeus, no entanto nunca foi levantada qualquer acusação quanto a falta da prática do dízimo. Jesus falou no dízimo algumas vezes, o que mostra sua conscientização com relação a esta prática. No que diz respeito a igreja primitiva, acredito que esta prática herdada da fé judaica fez parte da vida destes primeiros cristãos. No entanto, numa comunidade onde as pessoas contribuíam muito além do dízimo tonava-se desnecessário falar sobre este assunto. Como esclarece Alderi Souza de Matos:
“O princípio de que a contribuição devia ser marcada pelo desprendimento e liberalidade se manteve, como se pode ver na “Didaquê”, um manual eclesiástico do 2º século: “Tome uma parte do seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, segundo lhe parecer oportuno, e os dê conforme o preceito” (13.7). No final do mesmo século, Irineu de Lião se referiu aos cristãos como aqueles que “separam todas as suas posses para os propósitos do Senhor, entregando de modo alegre e espontâneo as porções não menos valiosas de sua propriedade” (“Contra as heresias” IV.18)… Com o passar do tempo e a crescente institucionalização da igreja, houve a necessidade de uma forma padronizada de contribuição. Com isso, recorreu-se ao precedente bíblico já conhecido e testado por muito tempo — o dízimo. Ao longo dos séculos, ele se tornou obrigatório — uma espécie de imposto eclesiástico — e na época de Carlos Magno passou a integrar a lei civil. No final da Idade Média surgiram abusos quando os dízimos, em certos casos, se tornaram um instrumento para a compra de cargos eclesiásticos (simonia). Houve controvérsias quando as pessoas buscavam fugir ao pagamento dos dízimos enquanto outras tentavam se apropriar desses rendimentos para si mesmas. Os países que tinham igrejas estatais recolhiam os dízimos dos fiéis em troca do sustento da igreja e do pagamento dos salários dos ministros (côngrua). No Brasil colonial, em virtude do sistema conhecido como “padroado”, o dízimo se tornou o principal tributo arrecadado pelo estado português.”
Como já tratamos acima, sempre existiram altruístas e abusadores no que se refere a fé e seus elementos. Inclusive é bom salientar que em alguns grupos outros elementos foram muito mais explorados de forma danosa do que o dinheiro em si.
A minha conclusão é que o dízimo é uma prática bíblica salutar e igual para todos na comunidade, daqueles que possuem mais ou menos recursos. No entanto, compreendo que cada comunidade, cristã ou não, deve tratar junto dos seus membros qual deve ser a forma que melhor lhes pareça. Como cristão, creio que optar pelo menos comprometedor e o mais barato denuncia a falta de desprendimento e amor para com a obra de Deus. Portanto, o dízimo é bíblico e uma prática histórica do cristianismo. Negar esta realidade é negar a história e combater esta prática ou criticá-la é inibir os direitos individuais do ser humano. No entanto se alguém não aceita tal prática pode desligar-se do grupo e viver como bem desejar. Não posso exigir ser membro das associações das quais faço parte que mantenham-me em pleno gozo dos meus benefícios se não estou em dia com minhas quotas anuais. É assim que a civilização funciona desde o princípio. E para concluir, termino com uma citação de Alderi Souza de Matos:
“Parece excessivo entregar um décimo dos rendimentos para Deus, para a causa de Cristo. Nem todos têm o desprendimento e a generosidade da pobre viúva elogiada por Jesus (Mc 12.41-44). Todavia, o dízimo pode ser uma bênção na experiência do cristão em dois sentidos. Primeiro, como um desafio para a sua vida espiritual. Dar o dízimo pressupõe uma relação de amor, gratidão e compromisso com Deus e com as pessoas que serão beneficiadas com essa contribuição. Em segundo lugar, é também um desafio para a melhor administração da vida financeira. Muitas pessoas têm dificuldade em contribuir para a igreja e suas causas porque são desorganizadas em suas finanças, gastam mais do que podem, não têm um senso de prioridades em seu orçamento. A prática do dízimo produz uma disciplina que beneficia outras áreas da vida. Para aqueles que querem trilhar esse caminho, a sugestão é que comecem a aumentar gradativamente a sua contribuição, até atingir o padrão do Antigo Testamento… e então ir além dele.”
Autor: Luis Alexandre Ribeiro Branco
Tambem publicado em:
Cascais - Lisboa - Portugal
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Geraldo Brandão
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