1 Pedro 3:15: “Sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (Almeida Revista e Atualizada).
Sem dúvida vivemos uns dos momentos mais críticos da história da igreja.
Um momento em que já não conseguimos facilmente uma audiência para a evangelização como acontecia antigamente. Hoje as pessoas estão entretidas nos seus próprios mundos, andam pelas ruas com os seus airpods nos seus ouvidos, nos autocarros e nos metros com os seus olhos nos ecrãs. Sentamos horas a fio numa viagem de autocarro ou comboio com uma pessoa ao lado, mas não nos preocupamos em saber quem são, quais as suas histórias, para onde vão. Então, nos limitamos em repetir esses comportamentos e seguimos indiferentes. Acredito que a palavra que melhor se encaixa a este quadro seja realmente “indiferença”.O fracasso na nossa evangelização está relacionado com o fato de andarmos indiferentes em relação ao mundo que se movimenta a nossa volta. Isto funciona como se o mundo finalmente tivesse conseguido uma forma de não apenas silenciar a igreja, mas também passar para ela este comportamento de indiferença com as coisas que acontecem a sua volta.
A minha pergunta é se estaríamos preparados para uma conversa séria sobre Deus com alguma pessoa que não conhece o evangelho. É este o ponto de Pedro na sua primeira carta. O apóstolo nos diz que devemos estar sempre preparados para responder a todo aquele que nos pedir a razão da nossa esperança. Estar preparado significa estar pronto para responder. Mostrar a razão da nossa esperança não significa discutir com alguém, forçar a nossa crença sobre outras pessoas, condenar qualquer tipo de comportamento contrário ao padrão cristão, mas responder em amor, com segurança, como quem vive e experimenta, a fé que dizemos ter em Cristo Jesus.
Vivemos num tempo em que a maioria das pessoas que compartilham o mesmo ambiente connosco no trabalho, na universidade, na escola e na vizinhança desconhecem por completo o que significa ter fé em Cristo. Na verdade, a própria palavra fé já não faz muito sentido num mundo onde a ciência e a tecnologia estabelecem os padrões de comportamento. Quem não segue a ciência é chamado de negacionista e quem não segue a tecnologia é chamado de retrograda. Hoje em dia as religiões que mais crescem são justamente aquelas em que o elemento da fé não tem nenhuma relevância, como o budismo, por exemplo.
No Ocidente já não se é cristão como se respira, boa parte dos adolescentes e jovens de hoje têm pouco ou nenhum contacto com a religião. É um fato! Não é algo que está nas suas listas de interesses. A religião é vista como algo que poda as liberdades, levam pessoas ao extremismo e ignorância. Com isto surge um novo tipo de ateísmo. Um ateísmo crítico que nos incomoda, que nos faz correr das perguntas, dos embates e das relações. “Ateísmo não significa ”irreligiosidade“ na acepção de uma recusa de Deus, mas a rejeição de um determinado tipo de teísmo, de uma determinada representação de Deus.“ (GRÜN; HALÍK, 2017, Kindle 259). Será que estamos dispostos a ouvir a crítica das pessoas, suas crenças e descrenças sem, contudo, taxá-las de impíos?
Na verdade, hoje em dia, quando alguém diz que não crê em deus, a nossa atitude primeira deveria ser perguntar em qual deus ela não acredita, pois, se calhar nós também não acreditamos neste mesmo deus. “Cada ateísmo refere-se a um tipo de teísmo.” (GRÜN; HALÍK, 2017, Kindle 259) Portanto, não precisamos ter pressa, não precisamos ficar na defensiva, pois, a realidade nos mostra que Jesus Cristo nunca perdeu o seu lugar no coração da humanidade. O que hoje se rejeita não é a Cristo, mas a religiosidade que chamamos de cristianismo. Friedrich Nietzsche escreveu: “Que serão ainda estas igrejas, se não forem os túmulos e os sepulcros de Deus?” (GRÜN; HALÍK, 2017, Kindle 136) A que igrejas estaria Nietzsche se referindo? Seria as igrejas legalistas? Seria as igrejas comprometidas com o estado? Seria as igrejas desprovidas da vida que encontramos em Cristo? O pastor Hermes Brito, presidente da Igreja Adventista da Promessa, num encontro para jovens universitários observou que houve uma época em que a igreja não conseguiu dialogar com a ciência, que acabou prevalecendo “A ciência se estabeleceu e prevaleceu um pressuposto sobre o enfático ‘Deus não existe’”. (NOVAES, 2017) Entretanto, o Jesus histórico existiu e ainda existe, pois ressuscitou dos mortos e até agora não há evidências do contrário. Este Jesus histórico permeia o coração da humanidade. Como escreveu Eli Stanley Jones: “Jesus não veio trazer religião, mas para ser Religião.” (JONES, 1926, 133) Tudo seria mais fácil se os cristãos vivessem mais parecidos com Jesus. A distância entre Jesus e os cristãos têm aumentado nos últimos tempos, de maneira que já não há nos cristãos o mesmo sentimento que houve em Jesus. Como não se consegue pregar a Jesus devido a distância entre a vida da igreja e a vida de Jesus, cria-se uma nova frente de defesa contra os de fora da igreja, devido as suas ações. Stanley Jones disse ainda: “Jesus não necessita de proteção. Ele precisa é ser apresentado. Ele protege-se a si mesmo.” (JONES, 1926, 133)
Acredito que a evangelização significa estar preparado para dar às pessoas uma resposta quanto a razão da nossa fé. Em especial nos ambientes onde temos a oportunidade para falar com tempo e com o direito de sermos ouvidos. É por este motivo que eu gosto da sala de aula, pois, como professor tenho toda a liberdade de estabelecer o meu ponto de vista e de ser ouvido. Ter o direito de ser ouvido é um privilégio que deve ser alcançado. Mesmo numa viagem de comboio, numa paragem de autocarro ou mesmo numa fila podemos apresentar as pessoas qual é a razão da nossa esperança.
Não chegaremos a lugar algum se a nossa postura for de acusação, de humilhação, de donos da verdade e de santarrões. Imagine que a pessoa com quem iremos conversar seja um muçulmano, católico, budista, hinduísta ou de outra religião qualquer. Imagine se esta pessoa for homossexual, casada com uma pessoa do mesmo sexo. Imagine se esta pessoa for cética, duvidar da existência de Deus ou que a Bíblia seja a Palavra de Deus. O que faremos? Em primeiro lugar devemos agir com respeito pela pessoa. Em segundo lugar devemos responder com humildade. Em terceiro lugar não devemos ter a preocupação de convencer a pessoa (portanto, todo argumento é inútil). Em quarto lugar devemos apresentar a razão da nossa esperança (eu era assim e já não sou mais – a experiência individual é inquestionável). E em quinto lugar devemos marcar para continuarmos a conversa numa outra oportunidade (seja num café, num parque ou num telefonema). Em sexto lugar devemos convidar a pessoa para ir a igreja e conhecer quem somos. Em sétimo lugar manter o contato em oração por esta pessoa.
O evangelismo continua a funcionar hoje em dia, devemos apenas fazer uma adaptação para a realidade atual e amar as pessoas.
Autor: Luis Alexandre Ribeiro Branco
Tambem publicado em:
Cascais - Lisboa - Portugal
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Geraldo Brandão
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