Leitura e reflexão: Jean Vanier

Foto: Jean Vanier
Resumo: O objetivo desta proposta é fazer uma apresentação de Jean Vanier enquanto filósofo, humanista e fundador do ministério l’Arche e Faith and Light. Comunidades dedicadas ao desenvolvimento espiritual do indivíduo à medida que este coloca-se a disposição de ir ao encontro das pessoas mais vulneráveis do mundo. No caso de Jean Vanier, no cuidado de pessoas mentalmente incapacitadas. A obra de Jean Vanier começada humildemente na França, logo espalhou-se para várias partes do planeta mobilizando não apenas católicos, mas protestantes e inclusive hindus. Jean Vanier conseguiu mobilizar pessoas como Henry Nouwen entre outras pessoas profundamente dedicadas ao cuidado de pessoas deficientes mentais. L’Arche tornou-se um símbolo renomado de compaixão e esperança, atraindo membros de diferentes contextos religiosos ou sem nenhum contexto religioso, sem contudo comprometer a compaixão e a espiritualidade que envolve cada comunidade. O objetivo desta apresentação é portanto, despertar uma consciência espiritual e de justiça social num mundo atribulado.
*Filiação: Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa*
Como já falamos Jean Vanier foi um filósofo, escritor, líder religioso e fundador de duas grandes organizações comunitárias internacionais, L’Arche e Faith and Light, que existem para pessoas com deficiência intelectual. As 154 comunidades L’Arche estão estabelecidas em 38 países e 1.450 comunidades Faith e Light que estão em 83 países. Esta comunidades são laboratórios vivos de transformação humana. Dentro e fora dessas organizações, Jean passou mais de quatro décadas como um advogado radicalmente envolvido na luta pelos pobres e fracos em nossa sociedade. Ele nos convida a reconhecer os profundos dons e lições que as pessoas que foram rejeitadas pela sociedade podem oferecer quando são adequadamente apoiadas e incluídas.
Os depoimentos daqueles que conviveram com Jean Vanier o descrevem-no como um homem visionário, como um defensor da humanidade, moldado por seu compromisso com pessoas marginalizadas. Foi um homem singular e segundo ele próprio, foi transformado pelo relacionamento com pessoas com deficiência intelectual. Trata-se de um homem de compaixão e um homem de letras.
Em 1964, Jean Vanier deixou uma vida de prestígio como professor universitário, oficial da marinha e filho do Governador Geral do Canadá – para morar em um vilarejo na França com alguns homens que ele recebeu de uma instituição para pessoas com deficiência intelectual.
Com o tempo, Jean descobriu que seus novos companheiros estavam levando-o a uma maior liberdade e alegria. Eles tinham muito a oferecer às suas comunidades e na criação de um mundo mais justo, vibrante e atencioso.
Por mais de 50 anos, Jean viajou pelo mundo, encontrando muitas pessoas e compartilhando o que estava descobrindo em entrevistas, palestras públicas e mais de 30 livros que ele publicou. Ele tornou-se uma voz de liderança no que significa ser humano – com todas as nossas diferenças, forças e limitações, e com nosso profundo desejo de união, amor e pertecenimento.
Jean Vanier foi um católico piedoso durante toda a sua vida, embora sua espiritualidade tenha ultrapassado os limites do catolicismo e atraído pessoas do protestantismo, hinduísmo e islamismo. Nunca negou ou escondeu sua devoção a Cristo, pelo contrário, foi sempre enfático na sua fé. Entretanto, nunca deixou de reconhecer o valor humano de cada indivíduo independente de sua crença. Foi portanto, esta mesma vida de devoção a Cristo que atraiu pessoas de diferentes confissões religiosas. Foi também um arauto ao condenar atos de injustiça contra os mais fracos, principalmente dentro do seu próprio catolicismo. Quanto aos abusos sexuais cometidos contra menores Jean Vanier escreveu o seguinte: “… a pedofilia é um crime que não pode ser acobertado, mas que precisa ser denunciado e seus perpetradores entregues a justiça”.[1]
No encontro com os mais vulneráveis, Jean Vanier, via a nossa própria cura. Se nos aproximamos de alguém como quem tem o poder para solucionar os seus problemas e dramas, na verdade não conseguimos fazer muita coisa. Mas quando nos aproximamos com humildade, com aquilo que Vanier chama de “o encontro”, seremos capazes de ver a cura acontecer dos dois lados, em nós e em nosso próximo. Vanier diz que “cada encontro verdadeiro expõe-nos à nossa própria vulnerabilidade…”.[2] Portanto, na perspectiva de Jean Vanier não há privilegiados, todos são de alguma forma incapacitados, seja esta incapacidade física, emocional ou espiritual. E é justamente neste encontro que reconhecemos a nossa vulnerabilidade e nossa possibilidade de cura através da nossa disposição humilde de ir ao encontro do outro. Vanier diz: “Fazer o bem ajuda-nos a manter o poder, mas no encontro verdadeiro nós perdemos todo poder e todo preconceito”.[3]
Nas comunidades estabelecidas por Jean Vanier concentram-se um número pequeno de incapacitados, aproximadamente dez pessoas. Um outro grupo de Staff unia-se ao grupo onde viviam como família. Certamente que os incapacitados exigiam mais cuidado, paciência, dedicação e amor, mas todos igualmente serviam como instrumentos de cura e objetos do amor uns dos outros dentro da comunidade.
Vanier pergunta: “O que é uma comunidade?” E ele mesmo responde: “Comunidade é um lugar onde a comunhão é manifestada e onde nós crescemos em comunhão. É um lugar de profunda humanidade”.[4] Comunidade é o lugar onde nossa humanidade aparece, onde compartilhamos nossas fraquezas, nossas preocupações e nossos medos. Desta forma, os mais vulneráveis na comunidade não sentem-se sozinhos em suas angústias e reconhecem em nós não um ser superior, mas um próximo. O próximo do qual falou Jesus: “…Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. (S. Mateus 22:39).
A comunidade para Jean Vanier é qualquer ambiente onde os mais fracos e vulneráveis podem conviver com os mais fortes e invulneráveis. No entanto o ser forte e invulnerável não significa ser superior ao outro, mas apenas uma condição física sem os impasses enfrentados pelos mais fracos e vulneráveis. Na comunidade acontece o encontro e neste encontro percebemos que embora possamos ter uma condição privilegiada, ainda assim continuamos de certa forma vulneráveis devido ao nosso medo e preconceitos. A ideia de “fazer o bem à alguém” coloca-nos na condição de manter o nosso poder, mas no encontro verdadeiro nós perdemos todo poder e preconceitos. Obviamente que isto exige de nós uma certa dose de humildade. Cada um de nós é temeroso, cada um de nós somos ignorantes sobre o que dizer ou fazer no encontro com o próximo. Então passamos a reconhecer que precisamos do outro para a nossa própria cura.
Não adianta-nos falar sobre ecologia e ignorar a humanidade. Vivemos numa época onde manifestamo-nos sobre as árvores derrubadas ou queimadas na Amazônia, mas ignoramos os 41 milhões de abortos realizados somente em 2019. E poderíamos incluir nestes números as milhares de pessoas perseguidas por sua fé em diferentes nações, os milhares de migrantes retidos em campos de refugiados mundo à fora e tantos outros problemas como a fome, a pobreza, a falta de educação, a falta de trabalho justo, a intolerância para com as mulheres, crianças e homossexuais. Jean Vanier chama-nos à sensibilidade ao pensarmos nestes assuntos. Na casa comum precisa haver espaço para todos.
E termino com uma declaração de Jean Vanier:
Nossas vidas são momentos fugazes em que são encontradas tanto as sementes da paz, unidade, amor e também as sementes da guerra, da dissidência e indiferença. Quando iremos levantar-mo-nos e despertar-mo-nos para o desejo de regar e cuidar das sementes da paz, unidade e amor? Quem irá se atrever?
Com uma escuta sã, encorajamento sábio e perdão mútuo, podemos caminhar juntos no caminho da paz. Através de nossas relações uns com os outros e com Deus, que nos mantém próximos em nossa pobreza, podemos ser transformados, curados e trazidos para a plenitude da vida. Juntamente com os mais marginalizados do mundo, nós podemos tornar-mo-nos um sinal de esperança para a humanidade.
Faleceu no Canadá, no dia 7 de maio de 2019, aos 90 anos de idade. No entanto, seu trabalho e legado continua vivo, inspirando e mobilizando pessoas em todo o mundo.
[1] Vanier, Jean (2013). Signs of the Times: Sevem Paths of Hope for a Trouble World. Darton, Longman and Todd Ltd. Londres, pp. 34.
[2] Idem, pp. 54.
[3] Ibidem, pp. 55.
[4] Ibidem, pp. 94-95.

Autor: Luis Alexandre Ribeiro Branco



Tambem publicado em:

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